Perfil epidemiológico no Estado do Piauí e comparação com a Região de Saúde dos Cocais, 2019–2024 (CID-10: O10, O11, O13, O14, O15, O16).
Responsável pela análise de dados: Romério de Oliveira Lima Filho
Objetivo específico: identificar a distribuição dos casos por tipo de síndrome hipertensiva gestacional. Nenhum óbito foi registrado sob O11 no período — a categoria não aparece no gráfico.
Resultado: a eclâmpsia (O15) foi isoladamente a causa mais frequente de óbito por SHG, respondendo por mais da metade dos casos (53,2%; IC95% 40,1–66,0%). Somada à hipertensão gestacional com proteinúria significativa (O14, 33,9%), essas duas categorias concentram 87,1% dos óbitos por SHG do período — as formas mais graves da síndrome dominam amplamente o quadro. Hipertensão pré-existente (O10, 3,2%) e hipertensão materna não especificada (O16, 1,6%) foram raras, e nenhum óbito foi registrado sob O11.
Objetivo específico: traçar o perfil por faixa etária, etnia/cor, escolaridade e local de ocorrência (Piauí, 2019–2024, n = 62).
Resultado: a mortalidade por SHG concentra-se em mulheres adultas jovens — 90,3% dos óbitos ocorreram entre 20 e 39 anos, com pico na faixa de 30–39 (53,2%). A maioria se autodeclarava parda (72,6%), refletindo a composição racial predominante do estado. Em escolaridade, 40,3% tinham de 8 a 11 anos de estudo (fundamental/médio incompleto), mas 11,3% dos registros não informaram essa variável. Praticamente todos os óbitos (93,5%) ocorreram em ambiente hospitalar — o que desloca a discussão de acesso ao sistema de saúde para a qualidade e tempestividade do cuidado obstétrico prestado, já que as mulheres chegaram a ser atendidas.
Objetivo específico: analisar a evolução temporal. A barra mostra o número absoluto de óbitos por SHG; o percentual abaixo indica a participação da SHG no total de óbitos maternos daquele ano.
Leitura do padrão temporal: em números absolutos a série oscila sem tendência linear clara (pico em 2019 e 2022, com 14 óbitos; menor valor em 2023, com 5). O achado mais relevante é a queda proporcional em 2021 — SHG caiu para 13,6% do total de óbitos maternos, seu menor peso relativo do período — coincidindo com o ano em que os óbitos maternos totais do Piauí saltaram para 59 (o maior do período), puxados por causas infecciosas/parasitárias maternas (CID O98, provavelmente COVID-19 associado à gestação), que responderam por 20 dos 59 óbitos daquele ano. Ou seja, a SHG não diminuiu em termos absolutos de forma expressiva em 2021 (8 óbitos) — foi diluída por um excesso de mortes de outra causa. Testes formais confirmam que essa oscilação não é uma tendência real: nem a proporção de SHG no total (teste de Cochran-Armitage, p = 0,346) nem a razão de mortalidade específica de SHG (regressão de Poisson, p = 0,190) mudam de forma estatisticamente significativa ao longo de 2019–2024.
Objetivo geral: comparação da mortalidade materna entre a Região dos Cocais e o Estado. Razão de Mortalidade Materna (RMM) por 100 mil nascidos vivos, calculada com nascidos vivos (SINASC) de cada território.
Lacuna anterior resolvida: como o Tabnet não gera uma tabela pronta cruzando CID-10 × Região de Saúde × Ano, geramos uma consulta adicional (filtrando Região de Saúde = Cocais antes de exportar) para obter os óbitos por SHG específicos da região. Resultado: a Região dos Cocais teve 5 óbitos por SHG em 6 anos — 3 em 2019, 1 em 2020, 1 em 2021 e nenhum entre 2022 e 2024. A RMM-SHG agregada do período é menor em Cocais (15,5/100mil) que no resto do estado (24,7/100mil), mas o teste de razão de taxas (Poisson exato) mostra que essa diferença não é estatisticamente significativa (razão de taxas = 0,66; IC 95%: 0,20–1,56; p = 0,437) — com apenas 5 eventos em 6 anos, a incerteza é grande demais para afirmar que Cocais tem risco diferente do resto do Piauí.
Contexto adicional: como a SHG se compara entre todas as regiões, não só Cocais. À esquerda, óbitos maternos de todas as causas; à direita, quantos desses óbitos foram por SHG em cada região.
Leitura: Entre Rios concentra quase um terço dos óbitos maternos do estado (31,5%) porque inclui Teresina, a capital — não é comparável em tamanho às demais regiões. Olhando a fração de SHG dentro de cada região (óbitos SHG ÷ óbitos maternos da própria região), Cocais fica em posição intermediária (21,7%): não é a região com maior nem com menor peso da SHG. Vale do Sambito chama atenção (66,7%), mas com só 6 óbitos maternos no total, esse percentual é instável — o teste de Fisher confirma que nenhuma região tem peso de SHG estatisticamente desproporcional em relação às demais (p = 0,122).
Teste exato de Fisher comparando quem morreu por SHG com quem morreu por outra causa materna no mesmo período, em cada variável sociodemográfica (H0: a distribuição não difere entre os dois grupos).
| Variável | p-valor | Diferença significativa? |
|---|---|---|
| Faixa etária | 0,304 | Não |
| Raça/cor | 0,497 | Não |
| Escolaridade | 0,099 | Não |
| Local de ocorrência | 0,552 | Não |
Leitura: em nenhuma das quatro variáveis a diferença chegou a ser estatisticamente significativa — ou seja, o perfil sociodemográfico descrito na Seção 02 (concentração em mulheres jovens, pardas, atendidas em hospital) não é exclusivo da SHG: é, de modo geral, o mesmo perfil da mortalidade materna por qualquer causa no Piauí. A variável mais próxima de uma diferença real foi escolaridade (p = 0,099): óbitos por SHG têm proporcionalmente mais mulheres com 4–7 anos de estudo (30,6% vs. 17,3% nas demais causas) e menos com escolaridade ignorada no atestado (11,3% vs. 24,9%).
Enriquecimento adicional: em vez das tabelas agregadas do Tabnet, esta seção usa os registros individuais (Declaração de Óbito anonimizada) do SIM. Validamos que esse microdado reproduz exatamente os mesmos 62 óbitos usados no restante da análise.
Resultado: a idade das mulheres variou de 14 a 42 anos, com média de 30,1 anos e mediana de 31 — coerente com a concentração em 30–39 anos já vista na Seção 02. A faixa "10 a 14 anos" identificada antes correspondia a uma única adolescente, com exatamente 14 anos.
Leitura: janeiro (10 óbitos) e outubro/março (8 cada) chamam atenção, mas o teste qui-quadrado não confirma desvio estatisticamente significativo de uma distribuição uniforme entre os meses (p = 0,369) — com 62 eventos espalhados em 12 meses (~5,2/mês esperado), essa variação é compatível com oscilação aleatória. No nível municipal, Teresina (8 óbitos) e Parnaíba (4) concentram os maiores números — esperado, por serem os municípios mais populosos —, mas os demais 43 municípios com pelo menos um óbito têm no máximo 2 casos cada. Na Região dos Cocais, os 5 óbitos por SHG ocorreram em 5 municípios diferentes, sem nenhuma concentração local.
Óbitos por SHG segundo categoria CID-10 e ano — Piauí, 2019–2024.
| Categoria CID-10 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total | % |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| O10 — Hipertensão pré-existente | 1 | – | 1 | – | – | – | 2 | 3,2% |
| O11 — Hipert. pré-exist. c/ proteinúria | – | – | – | – | – | – | 0 | 0,0% |
| O13 — HG sem proteinúria significativa | – | 1 | – | 2 | – | 2 | 5 | 8,1% |
| O14 — HG com proteinúria significativa | 6 | 5 | 3 | 4 | 1 | 2 | 21 | 33,9% |
| O15 — Eclâmpsia | 7 | 6 | 4 | 8 | 4 | 4 | 33 | 53,2% |
| O16 — Hipertensão materna não especificada | – | 1 | – | – | – | – | 1 | 1,6% |
| Total SHG | 14 | 13 | 8 | 14 | 5 | 8 | 62 | 100% |