Estudo epidemiológico · Fonte: MS/SVSA/CGIAE — Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e SINASC, via DATASUS/Tabnet

Óbitos maternos por Síndromes Hipertensivas na Gestação

Perfil epidemiológico no Estado do Piauí e comparação com a Região de Saúde dos Cocais, 2019–2024 (CID-10: O10, O11, O13, O14, O15, O16).

Susana Silva Lima·Rosa Maria do Rego Lima·Romério de Oliveira Lima Filho·Mara Regina Pereira Viana Damasceno Feitosa

Responsável pela análise de dados: Romério de Oliveira Lima Filho

62
óbitos por SHG no Piauí, 2019–2024
26,4%
de todos os 235 óbitos maternos do período
53,2%
foram por eclâmpsia (O15) — categoria predominante
53,2%
ocorreram entre 30–39 anos de idade
72,6%
das mulheres eram pardas
01

Distribuição por tipo de síndrome hipertensiva

Objetivo específico: identificar a distribuição dos casos por tipo de síndrome hipertensiva gestacional. Nenhum óbito foi registrado sob O11 no período — a categoria não aparece no gráfico.

Óbitos por categoria CID-10 · Piauí, 2019–2024 (n = 62)

Barras ordenadas por magnitude — tom mais escuro indica maior frequência
O15 — Eclâmpsia
33 · 53,2%
O14 — HG c/ proteinúria
21 · 33,9%
O13 — HG s/ proteinúria
5 · 8,1%
O10 — Hipert. pré-existente
2 · 3,2%
O16 — Hipert. materna NE
1 · 1,6%

Resultado: a eclâmpsia (O15) foi isoladamente a causa mais frequente de óbito por SHG, respondendo por mais da metade dos casos (53,2%; IC95% 40,1–66,0%). Somada à hipertensão gestacional com proteinúria significativa (O14, 33,9%), essas duas categorias concentram 87,1% dos óbitos por SHG do período — as formas mais graves da síndrome dominam amplamente o quadro. Hipertensão pré-existente (O10, 3,2%) e hipertensão materna não especificada (O16, 1,6%) foram raras, e nenhum óbito foi registrado sob O11.

02

Perfil epidemiológico dos óbitos por SHG

Objetivo específico: traçar o perfil por faixa etária, etnia/cor, escolaridade e local de ocorrência (Piauí, 2019–2024, n = 62).

Faixa etária

Concentração entre 20–39 anos: 90,3% dos casos
10–14 anos
1 · 1,6%
15–19 anos
3 · 4,8%
20–29 anos
23 · 37,1%
30–39 anos
33 · 53,2%
40–49 anos
2 · 3,2%

Raça/cor

Nenhum registro ignorado
Parda
45 · 72,6%
Branca
9 · 14,5%
Preta
8 · 12,9%

Escolaridade

40,3% com 8–11 anos de estudo; 11,3% ignorados
Nenhuma
1 · 1,6%
1–3 anos
5 · 8,1%
4–7 anos
19 · 30,6%
8–11 anos
25 · 40,3%
12 anos e mais
5 · 8,1%
Ignorado
7 · 11,3%

Local de ocorrência

Ambiente hospitalar concentra quase a totalidade dos óbitos
Hospital
58 · 93,5%
Outro estabelec. saúde
1 · 1,6%
Domicílio
1 · 1,6%
Outros
2 · 3,2%

Resultado: a mortalidade por SHG concentra-se em mulheres adultas jovens — 90,3% dos óbitos ocorreram entre 20 e 39 anos, com pico na faixa de 30–39 (53,2%). A maioria se autodeclarava parda (72,6%), refletindo a composição racial predominante do estado. Em escolaridade, 40,3% tinham de 8 a 11 anos de estudo (fundamental/médio incompleto), mas 11,3% dos registros não informaram essa variável. Praticamente todos os óbitos (93,5%) ocorreram em ambiente hospitalar — o que desloca a discussão de acesso ao sistema de saúde para a qualidade e tempestividade do cuidado obstétrico prestado, já que as mulheres chegaram a ser atendidas.

03

Evolução temporal dos óbitos por SHG

Objetivo específico: analisar a evolução temporal. A barra mostra o número absoluto de óbitos por SHG; o percentual abaixo indica a participação da SHG no total de óbitos maternos daquele ano.

Óbitos por SHG e participação no total de óbitos maternos · Piauí

Total de óbitos maternos (todas as causas) no ano, entre parênteses
14
34,1% de 412019
13
32,5% de 402020
8
13,6% de 592021
14
37,8% de 372022
5
21,7% de 232023
8
22,9% de 352024

Leitura do padrão temporal: em números absolutos a série oscila sem tendência linear clara (pico em 2019 e 2022, com 14 óbitos; menor valor em 2023, com 5). O achado mais relevante é a queda proporcional em 2021 — SHG caiu para 13,6% do total de óbitos maternos, seu menor peso relativo do período — coincidindo com o ano em que os óbitos maternos totais do Piauí saltaram para 59 (o maior do período), puxados por causas infecciosas/parasitárias maternas (CID O98, provavelmente COVID-19 associado à gestação), que responderam por 20 dos 59 óbitos daquele ano. Ou seja, a SHG não diminuiu em termos absolutos de forma expressiva em 2021 (8 óbitos) — foi diluída por um excesso de mortes de outra causa. Testes formais confirmam que essa oscilação não é uma tendência real: nem a proporção de SHG no total (teste de Cochran-Armitage, p = 0,346) nem a razão de mortalidade específica de SHG (regressão de Poisson, p = 0,190) mudam de forma estatisticamente significativa ao longo de 2019–2024.

04

Comparação: Estado do Piauí × Região de Saúde dos Cocais

Objetivo geral: comparação da mortalidade materna entre a Região dos Cocais e o Estado. Razão de Mortalidade Materna (RMM) por 100 mil nascidos vivos, calculada com nascidos vivos (SINASC) de cada território.

RMM geral — todas as causas de óbito materno

Piauí (Estado) vs. Região dos Cocais · panorama de contexto
85,5
88,9
2019
88,4
90,8
2020
128,3
124,1
2021
87,6
38,7
2022
54,6
19,2
2023
88,2
59,6
2024
Estado do Piauí Região dos Cocais

RMM específica de SHG

Óbitos por SHG (O10–O16) ÷ nascidos vivos × 100 mil, por ano
29,2
53,4
2019
28,7
18,2
2020
17,4
17,7
2021
33,1
0
2022
11,9
0
2023
20,2
0
2024
Estado do Piauí Região dos Cocais

Lacuna anterior resolvida: como o Tabnet não gera uma tabela pronta cruzando CID-10 × Região de Saúde × Ano, geramos uma consulta adicional (filtrando Região de Saúde = Cocais antes de exportar) para obter os óbitos por SHG específicos da região. Resultado: a Região dos Cocais teve 5 óbitos por SHG em 6 anos — 3 em 2019, 1 em 2020, 1 em 2021 e nenhum entre 2022 e 2024. A RMM-SHG agregada do período é menor em Cocais (15,5/100mil) que no resto do estado (24,7/100mil), mas o teste de razão de taxas (Poisson exato) mostra que essa diferença não é estatisticamente significativa (razão de taxas = 0,66; IC 95%: 0,20–1,56; p = 0,437) — com apenas 5 eventos em 6 anos, a incerteza é grande demais para afirmar que Cocais tem risco diferente do resto do Piauí.

05

Panorama completo: as 12 Regiões de Saúde do Piauí

Contexto adicional: como a SHG se compara entre todas as regiões, não só Cocais. À esquerda, óbitos maternos de todas as causas; à direita, quantos desses óbitos foram por SHG em cada região.

Óbitos maternos (todas as causas)

Piauí, 2019–2024 (n = 235) — % do total do estado
Entre Rios
74 (31,5%)
Planície Litorânea
24 (10,2%)
Cocais
23 (9,8%)
Chapada das Mangabeiras
21 (8,9%)
V. dos Rios PI e Itaueiras
18 (7,7%)
Vale do Canindé
16 (6,8%)
Serra da Capivara
14 (6,0%)
Vale do Rio Guaribas
12 (5,1%)
Carnaubais
11 (4,7%)
Chapada Vale do Rio Itaim
9 (3,8%)
Tabuleiros do Alto Parnaíba
7 (3,0%)
Vale do Sambito
6 (2,6%)

Óbitos por SHG

Piauí, 2019–2024 (n = 62) — "óbitos SHG de óbitos maternos da região"
Entre Rios
13 de 74 (17,6%)
Chapada das Mangabeiras
8 de 21 (38,1%)
Planície Litorânea
6 de 24 (25,0%)
Vale do Rio Guaribas
5 de 12 (41,7%)
Cocais
5 de 23 (21,7%)
Carnaubais
5 de 11 (45,5%)
Vale do Sambito
4 de 6 (66,7%)
Serra da Capivara
4 de 14 (28,6%)
Chapada Vale do Rio Itaim
4 de 9 (44,4%)
V. dos Rios PI e Itaueiras
3 de 18 (16,7%)
Vale do Canindé
3 de 16 (18,8%)
Tabuleiros do Alto Parnaíba
2 de 7 (28,6%)

Leitura: Entre Rios concentra quase um terço dos óbitos maternos do estado (31,5%) porque inclui Teresina, a capital — não é comparável em tamanho às demais regiões. Olhando a fração de SHG dentro de cada região (óbitos SHG ÷ óbitos maternos da própria região), Cocais fica em posição intermediária (21,7%): não é a região com maior nem com menor peso da SHG. Vale do Sambito chama atenção (66,7%), mas com só 6 óbitos maternos no total, esse percentual é instável — o teste de Fisher confirma que nenhuma região tem peso de SHG estatisticamente desproporcional em relação às demais (p = 0,122).

06

O perfil da SHG é diferente do perfil das outras causas maternas?

Teste exato de Fisher comparando quem morreu por SHG com quem morreu por outra causa materna no mesmo período, em cada variável sociodemográfica (H0: a distribuição não difere entre os dois grupos).

Resultado dos testes

p < 0,05 indicaria diferença estatisticamente significativa
Variávelp-valorDiferença significativa?
Faixa etária0,304Não
Raça/cor0,497Não
Escolaridade0,099Não
Local de ocorrência0,552Não

Leitura: em nenhuma das quatro variáveis a diferença chegou a ser estatisticamente significativa — ou seja, o perfil sociodemográfico descrito na Seção 02 (concentração em mulheres jovens, pardas, atendidas em hospital) não é exclusivo da SHG: é, de modo geral, o mesmo perfil da mortalidade materna por qualquer causa no Piauí. A variável mais próxima de uma diferença real foi escolaridade (p = 0,099): óbitos por SHG têm proporcionalmente mais mulheres com 4–7 anos de estudo (30,6% vs. 17,3% nas demais causas) e menos com escolaridade ignorada no atestado (11,3% vs. 24,9%).

07

Idade exata, sazonalidade e município (microdado do SIM)

Enriquecimento adicional: em vez das tabelas agregadas do Tabnet, esta seção usa os registros individuais (Declaração de Óbito anonimizada) do SIM. Validamos que esse microdado reproduz exatamente os mesmos 62 óbitos usados no restante da análise.

Idade exata

Piauí, 2019–2024 (n = 62) — não em faixas de 10 anos, idade real de cada óbito
30,1
média (anos)
31
mediana (anos)
14
idade mínima
42
idade máxima

Resultado: a idade das mulheres variou de 14 a 42 anos, com média de 30,1 anos e mediana de 31 — coerente com a concentração em 30–39 anos já vista na Seção 02. A faixa "10 a 14 anos" identificada antes correspondia a uma única adolescente, com exatamente 14 anos.

Sazonalidade

Óbitos por mês, todos os anos agregados (n = 62)
Janeiro
10 · 16,1%
Março
8 · 12,9%
Outubro
8 · 12,9%
Novembro
6 · 9,7%
Fevereiro
5 · 8,1%
Abril
5 · 8,1%
Jul. / Set.
4 cada · 6,5%
Mai. / Jun. / Ago. / Dez.
3 cada · 4,8%

Município exato — Região dos Cocais

Onde ocorreram os 5 óbitos por SHG da região (Seção 04)
Esperantina
1
Joaquim Pires
1
Milton Brandão
1
Pedro II
1
São João da Fronteira
1

Leitura: janeiro (10 óbitos) e outubro/março (8 cada) chamam atenção, mas o teste qui-quadrado não confirma desvio estatisticamente significativo de uma distribuição uniforme entre os meses (p = 0,369) — com 62 eventos espalhados em 12 meses (~5,2/mês esperado), essa variação é compatível com oscilação aleatória. No nível municipal, Teresina (8 óbitos) e Parnaíba (4) concentram os maiores números — esperado, por serem os municípios mais populosos —, mas os demais 43 municípios com pelo menos um óbito têm no máximo 2 casos cada. Na Região dos Cocais, os 5 óbitos por SHG ocorreram em 5 municípios diferentes, sem nenhuma concentração local.

08

Tabela-síntese

Óbitos por SHG segundo categoria CID-10 e ano — Piauí, 2019–2024.

Categoria CID-10201920202021202220232024Total%
O10 — Hipertensão pré-existente1123,2%
O11 — Hipert. pré-exist. c/ proteinúria00,0%
O13 — HG sem proteinúria significativa12258,1%
O14 — HG com proteinúria significativa6534122133,9%
O15 — Eclâmpsia7648443353,2%
O16 — Hipertensão materna não especificada111,6%
Total SHG14138145862100%